quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

UM SONHO QUE VIROU REALIDADE

Assim iniciou o sonho...
Era o dia 1º de maio de 1997, após ter feito a refeição, fui para minha costumeira cesta, por volta das 15h 30min, acordei com um chiado incrível na cabeça, e mal podia erguer o corpo. Pedi para me levarem no Pronto socorro, onde constataram que eu tinha sofrido uma Isquemia Cerebral. Às 19h, já caminhando e falando normal, não sentindo absolutamente nada, fui liberado para retornar para casa, onde deveria ficar em repouso absoluto.
Às 23h e 30 min, em minha cama, como quem queria acordar de um pesadelo, crendo ouvir a voz de meu falecido pai me chamar três vezes pelo nome e dizendo que eu deveria ir para um hospital, pois eu iria ter um derrame. Com muita dificuldade acordei, senti o lado direito paralisado, a cabeça parecia oca do lado esquerdo: fui chamar alguém e a voz não saiu. Com um esforço "tremendo" me levantei e, pulando só com a perna esquerda, fui até onde estavam meus familiares (pulei oito metros até eles) e pedi que me levassem para o hospital pois estava tendo um derrame. fui novamente conduzido e lá entrei com 29 de pressão arterial e o açúcar com 390. O médico diagnosticou: Ele teve uma 2ª Isquemia Cerebral.
Na madrugada de 02 de maio, às 3h fui acometido por um Derrame Cerebral.
Passei três dias na Unidade de Tratamento Intensivo, onde o neurologista, respondendo a uma pergunta minha, disse: "O senhor só vai poder mexer com a perna daqui a uns seis meses, só em novembro, vai ter que ter muita paciência e resignação. Mais de dez dias em quarto de hospital e fui mandado para casa.
Dia 13 de maio, já em casa, que maravilha olhar aquelas paredes, os quadros, os móveis. Como tudo é lindo!
Seguiram-se um, dois, três, quatro dias: todas as manhãs, lá pelas 9 horas era carregado para uma poltrona e aí, com um cobertor agasalhando as pernas, ficava horas olhando televisão.
Com muita dificuldade comecei a avaliar a minha situação. Dificuldade porque creio que estava com o poder de raciocínio reduzido a uns 40%. O lado esquerdo da cabeça parecia estar oco e que faltava um pedaço. Desde o primeiro momento eu sabia de tudo o que me acometera, a primeira, a segunda isquemia, seguidos de um derrame cerebral, jamais perdi a memória ou a lucidez. Às vezes não podia concatenar as palavras com aquilo que eu pensava. Por vezes pensava, raciocinava, mas não sabia como me expressar, as palavras não saiam. Eu não sabia como fazer os lábios e a língua se mexerem para dizer alguma coisa.
Minha avaliação me dizia que e eu estava "numa braba", como se diz, "num mato sem saída". Meu quadro era o seguinte:
- Pensava no meu querido pai, que após o segundo derrame ficou sete anos em cima de uma cama, completamente incapaz . Minha irmã fazia quatro anos que tinha sofrido um AVC, perdeu a memória e um pouco do controle da fala. Eu tinha pessoas amigas, em grande número, incontáveis, que foram acometidos por AVC e ficaram com seqüelas incríveis, pessoas incapazes e acabadas para a vida.
Minha fala era um grunhido, na maioria das vezes incompreensível. A risada era um som desconexo. Sentando, me calçavam com travesseiros e almofadas para não cair, embora sentado, tinha perdido o equilíbrio e o comando do lado direito. Para caminhar era carregado por duas pessoas. A comida era me dada na boca e a coordenação para mastigar e engolir a comida estava reduzida a pouco mais de nada, pois mordia a língua e o interior da boca. Me afogava com a saliva ou me engasgava com a comida. As mínimas coisas e hábitos eram feitos por meus familiares, porque além da paralisia direita no inicio do "drama", me faltou coordenação motora. Sou destro. O metabolismo do meu corpo mudou completamente. Nunca tive sequer uma prisão de ventre, passei a ter e crônica; a bexiga cheia e na hora de urinar, não saia nada, tinha que fazer força para urinar; perdi a sensação da fome; o lado direito do rosto ficou como que anestesiado não sentindo parte do nariz, língua e lábios. A dificuldade de respirar era grande, deve ter ficado reduzida a 50%, para falar sentia um cansaço enorme.
Sentia tonturas e às vezes um vazio na cabeça. Por horas sentia um zumbido e quando olhava objetos ou algum ponto, tudo parecia um filme, algo irreal. Tinha medo de fechar os olhos e dormir, olhava pela janela e sentia medo da imensidão, não podia direcionar meu olhar para distâncias ou alturas muito grandes.
Sentia muita carência, fiquei muito sensível, sentia falta de muita gente conhecida, chorava muito. Às vezes me sentia abandonado, qualquer programa de televisão eu chorava. Embora não demonstrasse, não queria estar só, sentia medos não sei de que, e angústias, ansiedades sem razão alguma. Às vezes, quase sempre me revoltava e me irritava por qualquer bobagem.

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